Inovação para segurança hídrica: destilador solar entra em operação em mineração de Ponta Grossa

Nos últimos anos, a segurança hídrica deixou de ser um alerta distante para se tornar uma preocupação concreta. Relatórios da Organização das Nações Unidas apontam que diversas regiões do planeta caminham para um cenário de “falência hídrica”, marcado pela dificuldade de garantir acesso contínuo e seguro à água potável. É nesse contexto que iniciativas voltadas à produção descentralizada de água ganham protagonismo, especialmente quando combinam inovação tecnológica e uso sustentável de recursos naturais.
Em Ponta Grossa (PR), uma dessas respostas começa a tomar forma. O projeto “Captação de água potável sustentável: destilação solar em ação” é fruto da parceria entre o Instituto Senai de Tecnologia em Meio Ambiente e Química, o Instituto Senai de Inovação em Engenharia de Estruturas e a empresa Mineração São Judas, localizada no distrito de Itaiacoca, a cerca de 33 quilômetros do centro do município.
A iniciativa nasceu a partir do Edital Sesi ESG 2024, quando a empresa buscava soluções alinhadas aos princípios ambientais, sociais e de governança (ESG), com foco na escassez hídrica e no uso responsável dos recursos naturais. A alternativa escolhida foi a destilação solar, tecnologia inspirada no ciclo natural da água. No processo, a radiação solar aquece a água em uma câmara fechada, promovendo a evaporação. O vapor gerado se condensa em uma superfície inclinada e é coletado como água destilada, livre da maior parte dos contaminantes, partículas e microrganismos.
Solução experimental
O projeto começou com experimentos em escala de bancada, que permitiram analisar o comportamento térmico dos materiais, perdas de calor, gradientes de temperatura e a influência do volume de água na eficiência do sistema. A etapa laboratorial forneceu dados essenciais para o avanço rumo a um modelo em escala piloto.
Desde janeiro de 2026, o destilador solar está instalado e em operação na unidade da Mineração São Judas. O equipamento passou a integrar a infraestrutura da empresa como solução experimental para produção de água a partir de energia renovável. Os volumes gerados variam ao longo do dia e das estações, acompanhando a intensidade da radiação solar — característica inerente a tecnologias limpas.
Para o pesquisador do Instituto Senai de Tecnologia em Meio Ambiente e Química, Ricardo Gonçalves de Morais, gestor e líder técnico do projeto, a iniciativa vai além da entrega de um protótipo. “Nosso objetivo não foi apenas construir um destilador solar, mas compreender profundamente seu desempenho em condições reais de operação. Estamos gerando dados sobre eficiência térmica, qualidade da água produzida e segurança microbiológica, o que abre caminho para futuras ampliações e adaptatações da tecnologia em diferentes contextos industriais e comunitários”, destaca.
Mais do que entregar um equipamento, a iniciativa consolida conhecimento técnico sobre a aplicação da destilação solar em ambientes industriais, avaliando aspectos como qualidade da água produzida, segurança microbiológica, condições de operação e possibilidades de expansão futura da tecnologia. Ao apostar em soluções baseadas na natureza, o projeto reforça o potencial da destilação solar como alternativa para sistemas hídricos mais resilientes, descentralizados e preparados para os desafios das próximas décadas.