Bioinsumos ganham força e podem reduzir dependência do Brasil por fertilizantes importados

Notícias15/04/2026
Projetos do ISI Eletroquímica utilizam resíduos agroindustriais e microrganismos para desenvolver soluções inovadoras para o campo
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Diante da dependência brasileira de mais de 80% de fertilizantes importados, especialmente potássio e fósforo e do potencial ainda pouco explorado de resíduos agroindustriais, o Instituto Senai de Inovação em Eletroquímica (ISI-EQ), no Paraná, estruturou uma frente de pesquisa dedicada ao desenvolvimento de bioinsumos. A iniciativa nasce com o objetivo de transformar biomassa e coprodutos do agronegócio em alternativas tecnológicas mais eficientes, sustentáveis e alinhadas às demandas atuais do setor produtivo.

A proposta vai além da simples substituição de insumos externos. Trata-se de uma mudança de paradigma, baseada na valorização de recursos abundantes no Brasil, como biomassa e coprodutos agroindustriais. “A criação dessa frente nasce de uma combinação muito clara de oportunidade e necessidade. O Brasil tem enorme disponibilidade de biomassa, mas ainda depende fortemente da importação de fertilizantes”, explica o pesquisador Mauricio de Matos. Segundo ele, o objetivo é transformar resíduos em produtos de alto valor agregado, conectando bioeconomia, competitividade industrial e sustentabilidade.

Reduzir custos e aumentar a eficiência

No centro dessa estratégia estão demandas concretas do setor produtivo: reduzir custos, mitigar riscos associados à dependência externa e aumentar a eficiência no uso de nutrientes. Para isso, os projetos conduzidos pelo ISI-EQ apostam em rotas tecnológicas inovadoras, que incluem o uso de microrganismos capazes de disponibilizar nutrientes a partir de fontes minerais pouco solúveis, além do reaproveitamento de resíduos agroindustriais como matéria-prima.

As linhas de pesquisa em andamento abrangem desde fertilizantes de liberação lenta e controlada até processos fermentativos e o uso de enzimas, bactérias e fungos para a produção de biofertilizantes, inoculantes e biostimulantes. Atualmente, essas tecnologias se encontram em estágios iniciais de maturidade (entre TRL 2 e 4), mas com potencial de rápida evolução. “Não basta identificar microrganismos com potencial agronômico. É necessário desenhar processos robustos para produção, estabilização e aplicação”, destaca Matos. Nesse contexto, a integração entre biologia, química avançada e engenharia de processos é essencial para aumentar a eficiência agronômica e reduzir perdas por volatilização e lixiviação.

Ativo estratégico

A economia circular é outro pilar central da iniciativa. O aproveitamento de resíduos de cadeias produtivas como grãos, cana-de-açúcar e biomassa florestal já demonstra viabilidade técnica significativa. Estudos indicam que esses materiais podem ser convertidos, por meio de rotas biotecnológicas, em insumos agrícolas de alto desempenho. “Os resultados mostram que resíduos podem deixar de ser um custo e passar a ser um ativo estratégico para a indústria”, afirma o pesquisador.

Além dos ganhos ambientais, os impactos econômicos também são relevantes. O uso de bioinsumos pode reduzir a necessidade de fertilizantes convencionais, diminuir custos operacionais e aumentar a produtividade no campo. Ao mesmo tempo, contribui para práticas agrícolas mais sustentáveis, alinhadas a agendas como agricultura regenerativa e de baixo carbono. “A substituição parcial de fertilizantes químicos por bioinsumos melhora a saúde do solo e aumenta a eficiência do uso de nutrientes, além de contribuir para a redução de emissões”, pontua Matos.

Essa atuação integra um projeto da plataforma Agenda.Tech, cofinanciado pelo Senai Nacional, voltado ao mapeamento e ao desenvolvimento de rotas tecnológicas estratégicas para a bioeconomia. A iniciativa articula uma ampla rede de parceiros, reunindo empresas como Fertsan, Agros Nutrition, Microcapsules Technology, Nutrientes e Intercroma, além de instituições como Embrapa, UFPR e o Observatório Sistema Fiep. Também participam os Institutos Senai de Inovação em Biossintéticos e Fibras (SENAI-RJ) e em Tecnologias Minerais (SENAI-PA), bem como os Institutos Senai de Tecnologia em Alimentos e Bebidas (SENAI-GO), Meio Ambiente e Química (SENAI-PR) e Celulose e Papel (SENAI-PR). Esse arranjo consolida um modelo colaborativo que conecta pesquisa aplicada, inteligência de mercado e demandas reais da indústria.

Apesar do potencial, desafios ainda precisam ser superados. Entre eles, estão a escalabilidade dos bioprocessos, a estabilidade dos produtos biológicos e a consolidação do ambiente regulatório. “Existe também o desafio de adoção pelo mercado, que depende de validação em campo e da confiança do produtor”, ressalta Matos.

Olhando para o futuro, o avanço dos bioinsumos é uma tendência global impulsionada por exigências ambientais e inovação tecnológica. Nesse cenário, o Brasil tem a oportunidade de assumir um papel de protagonismo. “A ideia é não apenas acompanhar essas tendências, mas posicionar o país como referência na bioeconomia”, conclui o pesquisador.