A Escola Móvel do Senai parte cedo. Percorre rodovias, atravessa o interior, chega a cidades cujos nomes muita gente de fora do Paraná nunca ouviu falar. É uma escola sobre rodas, literalmente. Onde para, monta salas de aula, instala máquinas, liga equipamentos e abre as portas para quem, de outra forma, teria de viajar para aprender uma profissão.
Em julho, esse trajeto do programa Qualifica Paraná tem 33 paradas.
E em uma dessas paradas, diante de uma máquina de costura industrial, está uma mulher de 47 anos que passou a vida inteira em outra profissão e que decidiu, agora, mudar de rota.
A trajetória de Ivonete: da cozinha à costura
Ivonete Aparecida trabalha como cozinheira. É o que ela sabe fazer, o ofício que sustentou seus dias
por muitos anos. Mas há um momento na vida em que a estrada que a gente vem seguindo deixa de responder às perguntas
que a gente começa a fazer. Para Ivonete, esse momento chegou com uma clareza desarmante.
"Como eu estou em uma idade, assim, que eu quero mudar, eu achei que é a hora."
Não é uma frase de arrependimento. É uma frase de decisão, a constatação de quem olha para trás, reconhece o caminho já percorrido e escolhe, conscientemente, pegar outro.
Mas o novo caminho de Ivonete não começou do zero. Ele tem raiz. "Eu sempre vi minha mãe costurando", ela conta. "Então eu me identifiquei com a costura e sempre procurei aprender uma coisa ou outra."
A máquina de costura estava em sua casa desde a infância, no movimento das mãos da mãe, no gesto repetido que Ivonete observou por anos. A costura sempre foi parte da paisagem da sua vida dela, só que como habilidade pela metade, aprendida de longe, pela observação e pelo afeto, nunca pela técnica.
Foi essa habilidade incompleta que a levou até a Escola Móvel do Senai Paraná. E foi no programa Qualifica Paraná que ela descobriu o tamanho real do caminho que ainda tinha pela frente.
O que muda quando se aprende de dentro
Há uma frase de Ivonete que resume, melhor do que qualquer dado, o valor da formação profissional. Ela poderia ter dito que já sabia costurar. Em vez disso, disse o contrário. "Hoje aprendi que ainda tenho muito a aprender para poder dizer que sou uma costureira."
A distância entre onde ela estava e onde queria chegar não a afastou. Pelo contrário. Ela mesma explica a diferença: "Você olhar uma pessoa costurando...aqui você tá aprendendo, você tá dando o direcionamento pra que você quer."
Ver alguém percorrer um caminho não é o mesmo que percorrê-lo. No Qualifica Paraná, Ivonete aprendeu a passar o fio na máquina do jeito certo, conheceu peças novas, descobriu técnicas que não aparecem quando se assiste alguém trabalhar de fora. Aprendeu que costura industrial tem lógica, sequência e padrão e que isso não se aprende sozinho.
O resultado dessa descoberta não foi frustração. Foi rumo. "Isso é uma coisa que eu quero e que eu vou seguir em frente."
As rotas de julho: por onde a escola vai passar
Enquanto Ivonete redesenha o próprio caminho, a Escola Móvel do Senai desenha os seus sobre o mapa
do Paraná.
Ao longo de julho, as unidades percorrem 33 municípios levando 1.172 vagas gratuitas distribuídas em 15 cursos diferentes.
O curso de Técnicas de Costura Industrial, o mesmo que Ivonete está fazendo, tem paradas marcadas em Curitiba (Lindóia), São Jorge do Ivaí e Luiziana. Cada uma dessas cidades recebe, por algumas semanas, uma sala de aula que não estaria lá se o Qualifica Paraná não fosse até ela.
A estrada mais longa: os últimos 40 anos da indústria paranaense
Há ainda um terceiro trajeto nessa história, o mais longo de todos, e o que dá destino aos outros
dois.
Nas últimas quatro décadas, o Paraná percorreu um caminho que poucos estados brasileiros percorreram. Segundo estudo recente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), com base em dados do IBGE e da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o estado foi o que mais ampliou sua presença na indústria brasileira entre 1985 e 2024, um avanço de 4,62 pontos percentuais na participação do emprego industrial nacional, o melhor desempenho do país no período.
Hoje, a indústria de transformação responde por 20,6% do PIB paranaense, bem acima da média nacional, de 15,2%, e por 21,1% dos empregos formais do estado. Na prática, aproximadamente um em cada cinco trabalhadores com carteira assinada no Paraná está na indústria.
E esse caminho não foi trilhado apenas pelas indústrias tradicionais. O maior avanço se deu em setores de alta e média-alta intensidade tecnológica: automotivo, máquinas e equipamentos, produtos químicos, equipamentos elétricos. Áreas que dependem de conhecimento, técnica e, sobretudo, de gente qualificada. O estado chegou a 210 mil trabalhadores em atividades tecnológicas em 2024, um crescimento de 36% em relação a 2017.
Os efeitos aparecem na renda e no emprego. A massa salarial paranaense cresceu 40,9% acima da inflação
entre 2018 e 2024. E o desemprego fechou 2025 em 3,2%, a menor taxa da série histórica do IBGE para o estado.
Um Paraná assim, que caminhou tanto e ainda caminha, precisa de uma coisa acima de tudo: pessoas dispostas a se qualificar para ocupar os postos que esse crescimento abre.
Onde os caminhos se encontram
Ivonete não conhece os números do IEDI. Não precisa. Ela sentiu, na própria decisão,
o que esses dados descrevem em escala estadual: que existe espaço para quem se dispõe a aprender, e que esse
espaço não para de crescer.
É aí que as três estradas se cruzam. A trajetória pessoal de Ivonete, da cozinha à costura, encontra a rota física do Qualifica Paraná, que levou a sala de aula até a cidade dela. E as duas, juntas, se conectam ao longo caminho da indústria paranaense, que há 40 anos vem construindo exatamente o mercado onde ela decidiu chegar.
A Escola Móvel do Senai Paraná é o ponto de encontro literal desses três percursos. É onde a demanda de uma economia inteira, a logística de uma escola que se move e a reinvenção de uma pessoa acontecem no mesmo lugar, ao mesmo tempo, diante da mesma máquina.
Quando perguntada sobre o futuro, Ivonete respondeu como quem já enxerga a estrada à frente. "Meu objetivo é fazer mais alguns cursos, porque isso é necessário. Mas eu vou ficar na área da indústria da costura, essa é a área que eu vou levar pra mim e pra minha vida agora."
A cozinha foi um caminho inteiro. A costura vai ser o próximo. E começou com o que a mãe lhe deu, não a técnica, mas a coragem de sentar diante de uma máquina e seguir em frente até entender aonde ela leva.
Qualifica Paraná em julho: como percorrer esse caminho
O programa que abriu essa estrada para Ivonete está com inscrições abertas para julho. São
1.172 vagas gratuitas em 33 municípios do Paraná, com turmas nos períodos da tarde e da noite, pensadas
para quem trabalha, cuida da família ou tem uma rotina que não pode parar.
Cada participante recebe bolsa-auxílio de R$ 1.008, material didático, uniforme e acesso a equipamentos de
ponta. A formação é presencial, prática e certificada, desenvolvida com base nas demandas reais
do setor produtivo paranaense.
Municípios atendidos em julho
Altamira do Paraná, Apucarana, Campo Largo, Cidade Gaúcha, Conselheiro Mairinck, Cruzeiro do Sul, Curitiba (Cajuru e Lindóia), Esperança Nova, Faxinal, Florestópolis, Francisco Alves, Jaboti, Japurá, Joaquim Távora, Luiziana, Mamborê, Marechal Cândido Rondon, Matelândia, Mauá da Serra, Mercedes, Pontal do Paraná, Quatiguá, Rosário do Ivaí, Santa Fé, São Carlos do Ivaí, São Jorge do Ivaí, São João do Ivaí, São Miguel do Iguaçu, São Pedro do Ivaí, Sertanópolis, Serranópolis do Iguaçu e Tijucas do Sul.
Cursos disponíveis em julho
• Técnicas de Costura Industrial
• Técnicas de Panificação
e Confeitaria
• Manutenção Elétrica Industrial
• Processos de Soldagem (Eletrodo
Revestido, MIG MAG e TIG)
• Mecânica de Motos
• Mecânica Automotiva
• Tecnologia
e Elétrica Automotiva
• Sistema de Injeção e Ignição Eletrônica
•
Operação de Torno e Centro de Usinagem CNC
• Sistemas de Automação Industrial com CLP
• Noções de Climatização Residencial e Refrigeração Comercial
•
Gestão de Qualidade, Produção e Manutenção Industrial
• Manutenção
para Operadores de Máquinas
• Instalação e Manutenção de Computadores
•
Informática para o Mercado de Trabalho
Quem pode participar
Pessoas com 16 anos ou mais que residam no Paraná. Para Manutenção Elétrica Industrial
e Soldagem, a idade mínima é de 18 anos completos. Não há limite máximo de idade. As vagas
são preenchidas por ordem de inscrição, e o candidato recebe por e-mail todas as informações
sobre documentação, convocação e início das aulas.
Como se inscrever
As inscrições são gratuitas e feitas exclusivamente pelo site
oficial.
Acesse: www.senaipr.com.br/qualifica-parana
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