Há decisões que não ficam presas ao ano em que foram assinadas. Uma dessas resoluções aconteceu em 22 de janeiro de 1942, quando o então Presidente do Brasil, Getúlio Vargas, assinou o Decreto-Lei n.º 4.048, criando o Senai.
Um ano depois dessa data, no dia 12 de março, nascia o Senai Paraná.
Mas, e se Getulio Vargas pudesse ver e parabenizar o que nasceu a partir daquela decisão?
Talvez ele dissesse algo muito próximo do que você lerá agora, como se o tempo tivesse concedido ao presidente a possibilidade de observar a obra atravessando gerações, do ensino industrial à formação superior, dos primeiros cursos de aprendizagem aos laboratórios de Tecnologia e Inovação, da criação nacional em 1942 à instalação no Paraná, até o presente, em que o Senai segue multiplicando produtividade na indústria paranaense.
Confira abaixo esse exercício de imaginação de como seria essa possível carta.
Boa leitura.
Escrevo-vos, transcorridas gerações desde o acto que instituiu o Senai.
Aos que consagram o seu labor à industria brasileira,
e, de modo particular, àquelles que, no
Paraná, elevam e multiplicam a capacidade productiva de sua terra,
Cumpre-me dirigir estas palavras quando a obra fundada pelo Decreto-Lei n.º 4.048, de 22 de janeiro de 1942, attinge oitenta e tres annos de existencia, confirmando, pela acção perseverante, a convicção que me guiou ao determinar sua creação.
Nos annos em que a Nação enfrentava incertezas economicas, dependencias externas e a fragilidade de uma estrutura productiva ainda em formação, impunha-se reorganisar as forças produtoras do Paiz, apparelhando-o technicamente para os desafios de seu tempo. A crise mundial, que abalára mercados e expusera vulnerabilidades, revelava-nos a necessidade de fundar bases solidas para o desenvolvimento industrial brasileiro, sob pena de comprometter a soberania e o destino historico do Brasil.
Não bastava fomentar a industria. Tornava-se indispensavel formar o homem que a sustentaria.
Foi nesse contexto que determinei a creação do Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriarios, convencido de que a instrucção technica, ministrada com methodo e disciplina, constituiria o mais efficaz instrumento para dignificar o trabalho, elevar o rendimento da producção e assegurar à industria nacional os quadros especializados de que carecia.
Esperava, então, que aquella instituição não se limitasse a organizar escolas de aprendizagem, mas que se convertesse em verdadeira obra construtora, capaz de preparar gerações de trabalhadores aptos a servir à industria com competencia, honra e espirito de cooperação.
No anno seguinte, em 12 de março de 1943, essa mesma obra se implantava no Paraná, integrando aquella terra laboriosa ao esforço nacional de organização do ensino industrial. O que ali se iniciou como expressão regional de um projecto brasileiro consolidou-se, ao longo das decadas, como força decisiva no desenvolvimento da industria paranaense.
Recordo-me, com viva emoção, de haver estado em Curitiba, em dezembro de 1953, quando, ao celebrar-se o primeiro centenário da emancipação política do Paraná, pude testemunhar, de perto, a grandeza moral e material de vosso Estado. Naquella ocasião, afirmei, diante de vossos representantes e de vosso povo, que o Paraná figurava entre os vanguardeiros na luta pela emancipação economica do Brasil, revelando-se espelho de optimismo e de esperança para toda a Federação.
A impressão que então guardei, ao contemplar o vosso triumpho pelo trabalho, a bem conquistada abundancia e o empenho em contribuir para a grandeza nacional, confirma-se agora, decorrido o tempo, pela consolidação de uma industria que encontrou solo fertil para expandir-se. Aquella terra, que já se affirmava promissora em meados do seculo, robusteceu-se pela disciplina, pela technica e pelo espirito creador de sua gente.
Ver o SENAI “Multiplicando a capacidade productiva da industria paranaense” é constatar que a obra, iniciada sob o signo da organização e do preparo technico, não apenas subsistiu, mas floresceu e frutificou em harmonia com a vocação progressista do Estado.
Transcorridas decadas, a instituição que nasceu como resposta a uma necessidade historica consolidou-se como fundamento da modernisação industrial do Brasil.
Na educação profissional, permanece fiel à sua origem, formando technicos, aperfeiçoando processos, estruturando directrizes racionaes de ensino e elevando o padrão de qualificação do trabalhador brasileiro.
Mas a obra não se deteve nos limites da aprendizagem inicial. Ao consolidar centros de Technologia e Inovação (STI), dedicados à investigação applicada e ao aperfeiçoamento scientifico dos processos productivos, o SENAI ampliou o alcance da missão que lhe foi confiada, tornando-se instrumento activo do progresso industrial e da soberania economica do Paiz.
E ao elevar-se à formação superior, vejo no UniSenai a expressão madura desse ideal que outrora apenas delineávamos: preparar não só o operario habil, mas o engenheiro, o gestor, o pesquisador e o dirigente aptos a pensar, innovar e conduzir os destinos da industria brasileira com visão ampla e espirito scientifico.
Assim, articulam-se, em perfeita harmonia, o preparo do trabalhador, o desenvolvimento technico e a formação superior, compondo um mesmo projecto nacional de fortalecimento da industria.
Se outrora apparelhavamos officinas, arsenais e serviços publicos, hoje consolidam-se laboratorios, centros de investigação applicada e espaços de aperfeiçoamento technico que ampliam o alcance da formação industrial. Mudam os instrumentos; permanece a missão.
Tal trajectoria demonstra que a educação profissional, o aperfeiçoamento technico e a elevação do ensino industrial não constituem iniciativas isoladas, mas partes de um mesmo projecto nacional: organizar o trabalho, valorisar o trabalhador e fortalecer a industria como fundamento da grandeza da Pátria.
Cumpre prosseguir.
Não se pode descurar da constante modernisação, nem afrouxar o empenho na formação das novas gerações. A industria é organismo vivo; exige preparo continuo, disciplina technica e visão de futuro. O SENAI, ao completar oitenta e tres annos de sua creação, reafirma-se como guardião da competencia industrial e multiplicador da capacidade productiva.
Assim se engrandece o Brasil.
GETÚLIO VARGAS
Signatário do Decreto-Lei n.º 4.048, de 22 de janeiro de 1942.