Waldemiro Peixoto Júnior tem 55 anos, foi professor, serviu na área militar e se aposentou sem jamais ter tocado em um pedaço de tecido com intenção de fazer algo com ele. Não sabia o que era uma overlock. Não distinguia uma máquina de costura reta de uma galoneira. Roupas, para ele, eram simplesmente roupas.
Hoje, ele senta à tarde diante de uma máquina de costura industrial no Campus da Indústria do Senai e reconhece ali algo que não esperava encontrar na aposentadoria: uma paixão.
"Eu nunca imaginei que fosse tão bom costurar", conta.
A história de como Waldemiro chegou até ali tem o sabor das histórias que começam por acidente e terminam em descoberta. Após se aposentar, ele queria estudar por prazer, sem prazo e sem obrigação. Como gostava de motores e de mecânica, foi ao Senai Boqueirão. Ficou seis anos. Fez quase todos os cursos disponíveis. E foi lá que conheceu uma pedagoga que certo dia lhe enviou um e-mail sobre cursos de vestuário: forração, padronagem de tecidos de automóveis, costura industrial.
Ele foi "fazer a experiência". Isso foi há pouco mais de dois anos. Hoje, frequenta o Campus da Indústria em dois turnos: à tarde, cursando o Técnico em Vestuário. À noite, o Técnico em Modelagem.
O ritmo que costura um novo estilo de vida
Antes do Senai, Waldemiro não entendia de roupas, pelo menos não no sentido técnico. Mas o contato com os laboratórios do Campus da Indústria, com as máquinas modernas e com os professores pacientes foi mudando algo nele. "Hoje, eu tenho um olhar diferente para roupas", diz. "Tenho muito carinho, tenho um interesse muito grande de partir para a alfaiataria."
Antes de chegar lá, porém, ele quer percorrer cada etapa do processo industrial, entender o fluxo de produção de uma fábrica de confecção, a lógica do corte em escala, o ritmo da costura seriada. "Quero passar por todos os passos da indústria para entender esse processo", explica.
Embora tenha tido receio de frequentar turmas majoritariamente femininas, esse sentimento logo se descosturou. A convivência, segundo ele, tem sido maravilhosa. "Todo mundo é igual aqui. As técnicas de ensino têm todo o carinho e paciência para explicar as coisas. Então, eu estou indo no mesmo nível que todos os outros estão."
Para ele, ir ao Senai virou algo próximo de uma terapia. "Eu venho aqui e saio muito feliz, motivado, muito satisfeito. Tanto a gente desenhar moldes, conhecer uma roupa desde a origem, quando a gente vai para o laboratório de costura, é muito gostoso." Uma pausa. "Fora que é uma maquinaria toda nova, toda novinha. Muito bom de trabalhar, muito fácil de manusear."
A moda que não se cala
A história de Michele Catiane tem textura diferente, mas o mesmo fio condutor: a moda como chamado que não passa.
Ela cresceu perto de tesouras e agulhas. A avó era costureira, fazia os seus looks, e a moda atravessou a infância de Michele como algo que parecia natural, inevitável. Quando adulta, seguiu outro caminho, uma faculdade em área completamente diferente, mas algo continuou a lhe chamar. "A moda sempre pulsou no meu coração", conta. "Eu tinha muita vontade de fazer meus próprios looks, de criar meus próprios looks."
Foi esse desejo que a trouxe ao Senai Campus da Indústria. Aluna do Técnico em Modelagem do Vestuário desde outubro, Michele descreve o curso como algo que "abrange uma área muito grande da moda", dos tecidos e suas propriedades às técnicas de acabamento, passando pela modelagem e pela costura industrial.
"Me senti muito acolhida aqui no Senai", diz. "Os professores são maravilhosos, têm uma excelente técnica para passar para os alunos. E a gente aprende todos os dias coisas novas."
Da primeira linha ao produto pronto: como funciona o curso
Por trás de histórias como a de Waldemiro e Michele, há uma proposta pedagógica sólida. Quem a explica é a Técnica de Ensino Luciane Fidelis, que percorreu o mesmo caminho que hoje orienta: foi aluna antes de ser professora, fez o curso que hoje ministra e também se formou em design de moda pelo UniSenai. É, como ela mesma define com orgulho, "a professora da casa".
"O curso técnico, eu diria que ele é bem completo", explica Fidelis. "A gente aprende do básico, desde passar o fio até fazer os cálculos, modelar uma saia, uma calça. E a gente vai fazer a prototipagem, que é o passo seguinte da modelagem. Depois a gente vai para a costura e, às vezes, a gente até consegue montar uma mini coleção."
O objetivo é que o aluno vivencie o processo inteiro: "Fazer o aluno sentir toda a etapa, desde a criação até ver a peça pronta, de repente vestindo ele próprio, um familiar."
Essa progressão, do fio à peça finalizada, é a espinha dorsal do Curso Técnico em Vestuário. Com duração de dois anos, na modalidade EaD, a formação cobre desde Tecnologia de Materiais Têxteis e Inovação até Gestão da Produção do Vestuário, passando por Modelagem Industrial, Processo de Costura Industrial, Sistema CAD na Confecção e Planejamento de Controle da Produção (PCP), entre outras disciplinas. O profissional formado está preparado para definir sequências de montagem, supervisionar o uso de maquinário industrial, monitorar desempenho produtivo e liderar equipes de costura, um perfil voltado para quem deseja atuar no ambiente de produção com responsabilidade técnica.
Já o Técnico em Modelagem do Vestuário, curso presencial com duração de 18 meses, que tem Michele e Waldemiro entre seus alunos, forma profissionais habilitados na gestão de processos de modelagem, inspeção de qualidade e prototipagem, com uso de ferramentas de computação gráfica, modelagem bi e tridimensional e softwares CAD.
Tecnologia no tecido
Fidelis pertence a uma geração que viu o setor se transformar. E sabe nomear a mudança: "Antes era um passo um pouco mais lento. Hoje a gente vê que a tecnologia está em tudo, nas máquinas, nas modelagens. A gente tenta demonstrar isso para os alunos de uma forma que eles vão interagindo, não só falando, mas pondo a mão na massa."
No contexto da Indústria 4.0, o Técnico em Vestuário precisa combinar conhecimentos tradicionais (modelagem, costura, acabamento) com domínio de softwares de design assistido por computador (CAD), modelagem 3D e análise de dados. Tecnologias como impressão 3D e fabricação digital já permitem a produção personalizada em larga escala, tornando a cadeia produtiva da moda mais eficiente e sustentável.
O Campus da Indústria acompanha esse movimento. Os laboratórios renovados da unidade, mencionados com entusiasmo por Waldemiro, que destaca o maquinário "todo novinho" e "muito fácil de manusear", são parte dessa atualização contínua.
Um mercado que contrata
O Paraná ocupa a quarta posição entre os estados brasileiros com maior número de trabalhadores no setor de vestuário, conforme a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho.
A média salarial do Técnico em Vestuário gira em torno de R$ 5.172,66, conforme o nível de experiência, de acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2025.
As possibilidades de atuação, segundo Fidelis, são amplas: "Você consegue trabalhar por conta, sendo autônomo, abrindo o seu ateliê em casa, mas pode também atuar em empresas, trabalhando na costura ou gerenciando uma equipe. É um leque grande e tem muitas oportunidades."
Além das indústrias de confecção, o Técnico em Modelagem do Vestuário pode atuar em empresas de desenvolvimento de produtos, ateliês de costura e figurino, assessorias em modelagem e produções para TV, teatro, cinema e desfiles.
O mesmo fio
Waldemiro Peixoto entrou no Senai para estudar mecânica. Ficou pela moda. Michele Catiane chegou com um desejo antigo no coração e hoje projeta a marca que vai levar o seu nome. Luciane Fidelis foi aluna, tornou-se professora, e continua ensinando, com a motivação de quem sabe, na prática, o que a educação profissional é capaz de mudar.
Três histórias distintas. Um mesmo fio que as conecta: a convicção de que nunca é tarde, nem cedo demais, para começar.
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