Dulcinéia Silva tem 66 anos. E faz tempo que ela vive segundo uma regra simples: aprender não tem prazo de validade.
Quando soube que o Senai traria um curso de Técnicas de Costura Industrial para perto de casa, não pensou duas vezes. "Eu falei: meu Deus, não posso perder."
A curiosidade é, segundo ela mesma define, parte de quem é. "Eu gosto de aprender, sabe? E passar um pouquinho que eu sei para as pessoas." Foi esse impulso, o desejo genuíno de descobrir algo novo, que a levou a se inscrever, mesmo sabendo que teria de lidar com formulários e telas que não são exatamente seu terreno mais confortável. "Eu sou lerda mesmo, devagar, na informática", ela diz rindo de si mesma. Mas terreno desconfortável nunca foi motivo para recuar.
E quando o e-mail confirmando a vaga chegou, a reação foi imediata: "Que felicidade! Porque eu queria muito esse curso."
Hoje, sentada diante de uma máquina de costura industrial pela primeira vez, Dulcinéia percebe com clareza algo que poucos param para notar: existe uma diferença entre aprender sozinho, em vídeos da internet, e aprender ao lado de alguém que pode corrigir, ajustar, mostrar de novo. "Aqui tem muita técnica que é só nesse tipo de aula que você consegue aprender." E ela não foi a única, naquela sala, para quem a vontade de aprender encontrou companhia.
Lúcia: fazer a mente trabalhar a favor, mesmo quando o corpo dói
Lúcia Muceniecks tem 69 anos. Há muitas décadas, teve um contato breve com uma máquina de costura e depois esqueceu tudo. "Nunca mais mexi", diz ela.
Voltar a costurar, para Lúcia, não é nostalgia, é uma necessidade que ela nomeia com clareza: "A gente, quando vai envelhecendo, precisa fazer com que a nossa mente trabalhe."
Lúcia convive com a fibromialgia, uma condição que traz dor crônica e torna qualquer tarefa nova um desafio físico real. "Isso às vezes é difícil para você. Você tem dor. Então você tem que lutar contra isso, fazer a sua mente trabalhar a favor."
Cada ponto de costura aprendido na Escola Móvel do Senai é, para ela, também um pequeno ato de resistência, um exercício que confronta a dor, em vez de se entregar a ela. "Aqui tem sido um trabalho muito bom", resume.
Ela credita boa parte disso à paciência da professora, que "dá novas estratégias para que a gente entenda melhor aquilo que ela está passando". E encerra com uma frase que carrega o peso de quem sabe o valor do que está vivendo: "Esse curso tem sido uma bênção na minha vida, e eu acredito que na vida das minhas colegas também."
Sheila: a aluna que se tornou técnica de ensino
Antes de ser a técnica de ensino responsável pelas aulas de Dulcinéia e Lúcia, Sheila Carolina Modesto Silva foi aluna de um curso muito parecido com o que ela hoje conduz.
"A minha vivência na costura e no mundo da moda começou com um curso de qualificação como esse", ela conta. "Depois outros cursos, a faculdade, a especialização no UniSenai."
Hoje, Sheila é técnica de ensino na unidade móvel que ela mesma chama, com afeto, de "meu menino". Em suas turmas de Técnicas de Costura Industrial, ensina o manuseio e o domínio das máquinas reta, overlock e galoneira, exatamente as ferramentas que, anos atrás, abriram a porta da própria carreira dela.
"É muito gratificante. A cada 24 dias, uma nova turma, são novas pessoas, novos conhecimentos que eu adquiro deles e passo para eles."
O perfil das turmas, segundo ela, é amplo: jovens, pessoas de meia-idade, senhoras, meninos e meninas. E o que acontece depois que a Unidade Móvel segue para outra cidade? Sheila não perde o contato. "Eu costumo ter sempre os grupos das turmas. A gente não sai do grupo e cada novidade elas me contam."
São fotos que chegam meses depois. Notícias de quem comprou a própria máquina. De quem conseguiu entrar no mercado de trabalho. Ou, simplesmente, de quem fez um pijama para o neto.
"Eu sei como está a evolução deles depois que eu vou embora", diz ela. É esse fio invisível, entre quem ensinou e quem aprendeu, entre quem foi aluna e hoje forma novas alunas, que sustenta o ciclo do Programa Qualifica Paraná. Sheila não é apenas professora. Ela é prova viva de que o curso pode ser o primeiro ponto de uma trajetória inteira.
O que as três histórias têm em comum
Dulcinéia, Lúcia e Sheila nunca se sentariam juntas, em nenhuma outra circunstância da vida, diante da mesma máquina de costura. Mas o Qualifica Paraná criou esse encontro e revelou algo sobre o que realmente significa capacitação profissional gratuita: ela não atende a um único tipo de pessoa, nem resolve um único tipo de problema.
Para Dulcinéia, o curso é a expressão de uma curiosidade que não tem idade, o desejo simples e constante de aprender algo novo. Para Lúcia, é resistência, física e mental, diante de uma condição que tenta, todos os dias, limitar o que ela pode fazer. Para Sheila, é o fechamento de um ciclo: a aluna que se tornou técnica de ensino, e que agora multiplica, em cada nova turma, o que um dia recebeu.
Histórias diferentes. Mesma sala de aula.
Sobre o Qualifica Paraná: como funciona o programa
O curso que reúne Dulcinéia, Lúcia e Sheila é uma das formações oferecidas pelo Qualifica Paraná. Nele, os alunos aprendem as principais técnicas da costura industrial e desenvolvem domínio sobre as máquinas reta, overlock e galoneira, os três equipamentos mais usados no setor têxtil.
E as oportunidades vão além. Afinal, o Qualifica Paraná chega ao mês de julho com 1.172 vagas abertas para cursos gratuitos de qualificação profissional em 32 municípios paranaenses. As aulas acontecem de forma presencial nas Escolas Móveis do Senai Paraná, com o objetivo de ampliar o acesso à educação profissional e gerar oportunidades de emprego e renda em regiões com demanda por mão de obra qualificada. A iniciativa é realizada em parceria com o Governo do Estado, por meio da Secretaria do Trabalho, Qualificação e Renda.
Além da formação prática e certificada, os participantes recebem:
- Bolsa-auxílio de R$ 1.008
- Material didático
- Uniforme
- Acesso a equipamentos de ponta
Municípios atendidos em julho
As Escolas Móveis percorrerão, ao longo do mês, os municípios de Altamira do Paraná, Apucarana, Campo Largo, Cidade Gaúcha, Conselheiro Mairinck, Cruzeiro do Sul, Curitiba (Cajuru e Lindóia), Esperança Nova, Faxinal, Florestópolis, Francisco Alves, Jaboti, Japurá, Joaquim Távora, Luiziana, Mamborê, Marechal Cândido Rondon, Matelândia, Mauá da Serra, Mercedes, Pontal do Paraná, Quatiguá, Rosário do Ivaí, Santa Fé, São Carlos do Ivaí, São Jorge do Ivaí, São João do Ivaí, São Miguel do Iguaçu, São Pedro do Ivaí, Sertanópolis, Serranópolis do Iguaçu e Tijucas do Sul.
As turmas funcionam nos períodos da tarde e da noite, para que os participantes possam conciliar a formação com o trabalho e outras responsabilidades.
Os cursos ofertados em julho são:
- Manutenção Elétrica Industrial
- Noções de Climatização Residencial e Refrigeração Comercial
- Operação de Torno e Centro de Usinagem CNC
- Processos de Soldagem (Eletrodo Revestido, MIG MAG e TIG)
- Mecânica Automotiva
- Mecânica de Motos
- Tecnologia e Elétrica Automotiva
- Sistema de Injeção e Ignição Eletrônica
- Sistemas de Automação Industrial com CLP
- Gestão de Qualidade, Produção e Manutenção Industrial
- Manutenção para Operadores de Máquinas
- Instalação e Manutenção de Computadores
- Informática para o Mercado de Trabalho
- Técnicas de Costura Industrial
- Técnicas de Panificação e Confeitaria
Como participar
Podem se inscrever pessoas com idade mínima de 16 anos que residam no Paraná. Para os cursos de Manutenção Elétrica Industrial e Soldagem, a exigência é de 18 anos completos. Não há limite máximo de idade (como provam Dulcinéia e Lúcia) e as vagas são preenchidas por ordem de inscrição. Após a inscrição, o candidato recebe por e-mail todas as informações sobre convocação, início das aulas e documentação necessária.
As inscrições são gratuitas e realizadas exclusivamente pelo site oficial do programa.
Acesse: www.senaipr.com.br/qualifica-parana
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